11 de julho de 2011

Brasil dividido: História ensinada nos colégios militares difere da ensinada nos colégios civis. Dois governos?

Li um artigo do Celso Lungaretti, um dos nossos heróis na resistência ao golpe de 64, hoje jornalista e escritor, que me chamou muito a atenção. Talvez por eu nunca ter conseguido entender o papel que as forças armadas desempenharam tanto em 1964, como em outros momentos de nossa história. E também porque sempre me pareceu haver uma dicotomia entre militares e civis, não sendo de hoje minha desconfiança quanto a formação que recebem os militares.
O artigo do Celso vem por luz nestas minhas elucubrações e reafirmar minha crença na informação, como um setor estratégico para qualquer nação que almeje soberania.
É difícil acreditar que a História ensinada para as crianças nos colégios militares não seja a mesma ensinada nas escolas onde estudam os civis. Teríamos então várias Histórias? Ou seriam Estórias? Ou, o que pode ser mais grave ainda, qual a origem e que intenções estariam por traz deste fato para lá de esquisito?
Seria, como disse um cidadão ao comentar o artigo do Celso, "quer dizer então que temos dois governos? Um civil e um militar"? Ou quem sabe, um nacional e um estrangeiro?
Ironizando e lendo sobre as "intervenções" dos EUA na América Latina e agora sobre a orientação que o exército brasileiro(?) vem recebendo, não acredito mais que invasões possam ocorrer em nosso país. Simplesmente porque aqui mesmo, já temos quem faça o "serviço".
Reproduzo agora alguns trechos do artigo de Celso Lungaretti publicado no blog Náufrago da Utopia

SÓ FALTA OS COLÉGIOS MILITARES ADOTAREM O 'MEIN KAMPF'...

Respondendo a perguntas dos leitores da revista Época, o deputado Jair Bolsonaro assim se manifestou  sobre a Comissão da Verdade:
"Partindo do princípio de que todos os integrantes serão indicados pela presidente da República, não se pode esperar imparcialidade do que for relatado. O que se pretende é elaborar relatórios mentirosos, endeusando os petistas e demais adeptos da esquerda e satanizando os militares para que conste em livros didáticos uma nova História escrita de forma unilateral e mentirosa".
Decerto ele gostaria que os livros didáticos fossem todos como o História do Brasil: Império e República, de Aldo Fernandes, Maurício Soares e Neide Annarumma, adotado pelos colégios militares brasileiros. 

A Anpuh - Associação Nacional dos Professores Universitários de História tem enviado reiterados protestos aos ministérios da Defesa e da Educação e Cultura, bem como à Casa Civil, pois tal livreco mantém a falaciosa retórica ditatorial, que foi para a lixeira em 1985 e hoje só é encontrada nos nichos da extrema-direita. “Que cidadãos estão sendo formados por uma literatura que justifica, legitima e esconde o arbítrio, a tortura e a violência?" -- questiona a entidade.


De acordo com Luis Fernando Cerri, diretor da Anpuh e professor de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa, legitimar o golpe militar na educação básica fere preceitos constitucionais, já que “nossa Constituição proíbe várias práticas da ditadura militar, como a formação de grupos armados para tomar o poder”.

Além disto, acrescenta Cerri, tal obra está abaixo do padrão de qualidade exigido pelo Programa Nacional do Livro Didático, "pela falta de organização da informação, pelo modo como são formuladas questões para os alunos e por não estar dentro das discussões atuais da historiografia brasileira, do nosso atual estado de conhecimento”.

O MEC sai pela tangente, alegando que o ensino militar tem autonomia e uma legislação específica.

A CENSURA TERIA SIDO NECESSÁRIA 
PARA O PROGRESSO DO PAÍS

"A história oficial contada aos alunos dos 12 colégios militares do país omite a tortura praticada na ditadura e ensina que o golpe ocorrido em 1964 foi uma revolução democrática; a censura à imprensa, necessária para o progresso; e as cassações políticas, uma resposta à intransigência da oposição.

É isso que está no livro didático História do Brasil - Império e República, utilizado pelos estudantes do 7º ano das escolas mantidas com recursos públicos pelo Exército.

As escolas militares poderiam utilizar livros gratuitos cedidos pelo Ministério da Educação a todas as escolas públicas. Mas, para a disciplina de história, optaram pela obra editada pela Biblioteca do Exército, que deve ser adquirida pelos próprios alunos. (...) O Exército afirma que o material 'atende adequadamente às necessidades do ensino de História no Sistema Colégio Militar'.
 O livro de história mais adquirido pelo MEC para o ensino fundamental, da editora Moderna, apresenta a tomada do poder pelos militares como um golpe, uma reação da direita às reformas propostas por João Goulart. A partir disso, diz a obra, seguiu-se um período de arbítrio, com tortura e desaparecimentos, em que a esquerda recorreu à luta armada para se manifestar contra o regime.
Já a obra da Bibliex narra uma história diferente: Goulart cooperava com os interesses do Partido Comunista, que já havia se infiltrado na Igreja Católica e nas universidades. Do outro lado, as Forças Armadas, por seu 'espírito democrático', eram a maior resistência às 'investidas subversivas'.

No caderno de exercícios, uma questão resume a ideia. Qual foi o objetivo da tomada do poder pelos militares? Resposta: 'combater a inflação, a corrupção e a comunização do país'.

A obra não faz menção à tortura e ao desaparecimento de opositores ao regime militar. Cita apenas as ações da esquerda: 'A atuação de grupos subversivos, além de perturbar a ordem pública, vitimou numerosas pessoas, que perderam a vida em assaltos a bancos, ataques a quartéis e postos policiais e em sequestros'.

A censura é justificada: 'Nos governos militares, em particular na gestão do presidente Médici, houve a censura dos meios de comunicação e o combate e eliminação das guerrilhas, urbana e rural, porque a preservação da ordem pública era condição necessária ao progresso do país'".